Farol Psicologia - Lins SP

A Farol Psicologia surgiu da idéia de criar um espaço para expor nosso trabalho como psicólogos e pensadores dos dias de hoje.
O farol é nossa inspiração, como um norteador no mar incerto, na incompletude.
Como psicólogos atuamos com as palavras, muitas vezes com o inacessível, e para isso buscamos na psicanálise, na psicologia, nas artes, na poesia, e outras "ciências" respostas, e por que não, mais perguntas.
Quem somos?

Mariana Rosa Cavalli Domingues

Psicologa Clínica e Judiciária
Psicóloga pela UEL, Especializada em Clinica Psicanalítica e Mestre em Filosofia pela UFSCar

@marircd

e
Taciano Luiz Coimbra Domingues

Psicólogo Clínico e Judiciário
Psicólogo pela UEL, Especializado em Terapia de Casal e de Família, Especializado em Terapia sexual e Mestre em Psicologia pela UNESP - Assis.


Rua José Garcia de Carvalho, 70 Lins - São Paulo,
tel.: (14) 99109 - 2016

segunda-feira, 27 de junho de 2022

PRECONCEITO, MULTIPLICIDADE E ESCOLA

 


Saudações!! Segue Minha proposta de colocar aqui os ensaios que escrevi durante uma disciplina do doutorado. O tema desse é:


PRECONCEITO, MULTIPLICIDADE E ESCOLA

                                                                                Taciano L. C. Domingues


Nos estudos sobre a origem do homem, a antropologia relata que nos últimos vinte oito mil anos existiam duas espécies de hominídeos, contudo somente o Homo Sapiens Sapiens prevaleceu, o Homo Neanderthalensis foi extinto. Existem indícios de que essas duas espécies tiveram contato, inclusive que uma causou o fim da outra (BLUMRICH, 2020).

Existem referências históricas da dificuldade da espécie humana em se relacionar com o diferente e com a diferença. Para os Romanos e Gregos, todos outros povos da antiguidade eram considerados bárbaros porque não falavam o mesmo idioma, não veneravam os mesmos deuses e não tinham a mesma organização social (DICIO, 2021). Para se tornar civilizado, o bárbaro teria que adotar os mesmos costumes do dito civilizado. Sublinhamos que estamos descrevendo o comportamento de povos de há mais de 2 mil anos, alguma semelhança com a atualidade não é mera coincidência.

Um exemplo mais próximo da nossa história de como pode ser equivocada a apreensão da diferença, foi o momento fundante do Brasil, Pindorama para os índios, em 1500 pelos portugueses. O escrivão Pêro Alves Cabral retratou os autóctones como: primitivos, inocentes, ingênuos; necessitando serem educados, catequizados e vestidos; negando a cultura indígena (SEABRA, 2000).

Uma poesia muito bonita sobre isso, “ERRO DE PORTUGUÊS” de Oswald de Andrade, poeta e escritor paulistano, ex-marido de Tarsila do Amaral, importante membro da Semana de Arte Moderna de 1922: “Quando o português chegou debaixo de uma bruta chuva. Vestiu o índio. Que pena! Fosse uma manhã de Sol. O índio teria despido o português”.

Todavia teria um grau alento se a: alteridade, estrangeiro, forasteiro, alienígena, diferente, esquisito, alheio fossem conceitos, palavras e expressões usadas somente para outras nações e etnias; sarcasticamente não, é entre os membros da mesma cultura que as dessemelhanças ganham maior força e são alvo de discriminação e preconceitos. Nossa sociedade usa e abusa de modelos e padrões de: conduta, corpos, pensamentos, objetivos de vida, amores, conhecimentos e de ensino; excluindo e marginalizando o que não se enquadra.

Parece uma insensatez essas afirmações sobre um povo multicultural como o nosso, mas podemos fornecer alguns dados sobre isso. O Brasil foi o país que realizou o maior número de cirurgias plásticas estética no mundo em 2020, a rinoplastia como principal (FOLHA VITÓRIA, 2021). Isso mostra uma grande preocupação com os padrões de beleza.

A LGBTfobia expõe a dificuldade em conviver com o diferente. Numa pesquisa realizada em 2016 com estudantes LGBTs, 73% deles informaram que foram agredidos verbalmente devido a sua orientação sexual ou comportamento. (POLETIZE!, 2021).

E quando as diferenças não são externas, não são interpessoais, são intrapessoais? O ser humano não é uniforme na sua subjetividade, ele pode ser acometido por sentimentos, pensamentos e ações diferentes que expressam a multiplicidade e não a sua unicidade (CARDOSO JUNIOR, 1996). Portanto, uma pessoa pode apresentar várias características diferentes, dificuldades e potencialidades.

Um exemplo dessa multiplicidade são os gênios humanos (superdotação) que também apresentavam dislexia (transtorno que dificulta a aprendizagem através de uma perturbação na leitura e na identificação de fonemas). O físico Albert Einstein foi um exemplo dessa dupla condição, inclusive existem relatos que ele só começou a falar depois dos 6 anos idade (DIVULGAÇÃO DINÂMICA, 2021), sofrendo no ambiente escolar porque não se enquadrava nos padrões esperados para os estudantes, nem para “mais” e nem para o “menos”.

Foucault (2009) descreve a escola como uma instituição que busca moldar o ser humano, promovendo sua padronização. Refletindo sobre os escritos desse autor, podemos supor que a escola pode tratar os dois lados da dupla condição com dificuldade, uma vez que o estabelecimento de educação pode lançar o mesmo olhar para o que foge da fôrma, do que não é esperado, mesmo que seja uma superdotação. Na busca de uma uniformidade dos alunos, pode ocorrer tanto estranhamento do que está “abaixo da média” (medicando no caso da Dislexia) quanto o que está “acima da média” (ignorando as suas altas habilidades).

 

 

REFERÊNCIAS

BLUMRICH, L. Uma biografia pré-histórica. Revista de Arqueologia, [S. l.], v. 33, n. 2, p. 167–169, 2020.

CARDOSO JUNIOR, H. R. A origem do conceito de multiplicidade segundo Filles Deleuze. Trans/Form/Ação, São Paulo, 19: 151-161, 1996.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

POLETIZE!, c2021. Página inicial. Disponível em: <https://www.politize.com.br/>.

R7. FOLHA VITÓRIA, c2021. Página inicial.

SEABRA, J. A. Descoberta do outro na carta de Pero Vaz Caminha. Revista de Letras e Culturas Lusófonas, [S. l.], n. 8, p. 63-71, jan./mar. 2000.

SETE GRAUS. DICIO – Dicionário Online de Português, c2021. Página inicial.

The Education Club. Divulgação Dinâmica, c2021. 20 personalidades famosas com dislexia. 


segunda-feira, 9 de maio de 2022

A leitora curiosa cansada

Compartilho com vocês um pequeno texto poético e despretensioso;

 


A leitora curiosa cansada

 Mariana R C Domingues


A leitora da madrugada tentava vencer o sono com sua curiosidade pelas palavras que poderiam lhe fornecer o desconhecido.

As palavras em fileiras organizadas da esquerda pra direita, alinhadas e estruturalmente tornadas compreensíveis, com o passar das horas pareciam se embaralhar. Com esforço no olhar ela retornava ao início da frase, o que dizia mesmo? A leitora cansada começa a perceber que aquelas palavras não estão a lhe oferecer mais nada. Mas insiste.

Então de súbito, de uma ponta a outra da linha escrita, uma rede se forma e despeja palavras escondidas. Uma rede tal como as de se deitar. Realmente estava cansada aquela moça. Uma rede tecida sem linhas, mas apenas com aqueles significantes intrusos a dançar pela tela do computador, nas entrelinhas.  Não era uma rede cognitiva, mas precisava se libertar daquela cadeia não significativa. Não era uma rede social e nem afetiva. Num sonho talvez poderia se embalar, mas tomba-lhe a cabeça.

Num piscar de olhos tudo volta ao normal. O texto está inteiro ali a sua frente, desafiando sua resistência a dormir, sua resistência física de maratonista, resistindo à tentação de enredar-se numa rede de algodão, querendo manter-se no enredo daquele saber.

Uma coisa ficou clara naquela madrugada:  muitas palavras podem se esconder numa rede entrelinhas. 

 


Rede – peça de tecido resistente (de algodão, linho ou fibra) suspenso pelas extremidades, usado para dormir ou embalar.


segunda-feira, 7 de março de 2022

EVASÃO ESCOLAR E O VALOR DA EDUCAÇÃO

 


Saudações!! Segue outro ensaio interessante que escrevi numa disciplina do doutorado. Seu tema é:


Evasão Escolar e o Valor da Educação

Taciano Luiz Coimbra Domingues

 

A economia de um país é algo importante! Uma forma calcular o seu “tamanho” é através do seu Produto Interno Bruto (PIB). Ele é formado pela soma de todos bens e serviços produzidos pelo país durante um ano. O Brasil, apesar de ter perdido algumas posições nos últimos dez anos, ocupou o 12 º lugar no ranking mundial (DICIONÁRIO FINANCEIRO, 2021). Essa colocação foi embasada nos dados fornecidos em abril de 2021 pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Nesse ranking, o Brasil fica na frente de países como: Austrália, Espanha e Suíça. Cientes dessa informação podemos dizer que o Brasil é um país pobre?

Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os seus dados indicaram um aumento de 11,2% no índice de pobreza no Brasil entre 2016 e 2017. Isso é muito preocupante porque com esse aumento, em 2017 chegamos ao número de 53% dos brasileiros vivendo na pobreza extrema (CHILDFUND, 2021), ou seja, a pessoa vive com menos de 1,90 dólares por dia.

Como podemos evidenciar, o Brasil não é um país pobre de recursos econômicos, entretanto, tem um alto índice de pessoas vivendo na miséria como consequência de uma má distribuição de renda. Como poderíamos combater essa questão?

Evangelista e Shiroma (2006) destacam que a partir dos anos 1990, vários autores começam a defender a Educação como a solução de vários problemas sociais. Entre vários, os autores apontam: o tratamento desigual das pessoas diante do sistema de justiça; oportunidades econômicas e sociais oferecidas de acordo com características de classe social, raça, credo e cor; falta de solidariedade entre os cidadãos, inclusão social e pobreza.

Contudo como anda a Educação num país tão desigual como o nosso? Principalmente em relação as crianças e adolescentes que sofrem de forma direta os impactos da pobreza (COSTA et al., 2016)? Se a Educação é um meio de superação da pobreza é importante estarmos atento a um problema muito grave relacionado a esse direito constitucional, que é a evasão escolar.

A PNAD (OBSERVATÓRIO DE EDUCAÇÃO, 2021) forneceu dados alarmantes sobre essa questão. No ano de 2018, 40% dos brasileiros de 19 anos não haviam concluído o ensino médio. Dos jovens ouvidos que não haviam terminado o ensino médio, 55% pararam de estudar no ensino fundamental. O que leva nossas crianças e adolescentes a abandonarem a escola?

Figueiredo e Salles (2017) sublinham que a evasão escolar sofre influência de vários fatores: subjetivos, familiares, do funcionamento da escola, da renda familiar, dependência química, tráfico de drogas, gravidez na adolescência, violência etc.

No entanto um fator importante que muitas vezes não é mencionado nas pesquisas é o valor que a sociedade brasileira dá para o estudante. O perfil da pessoa que lê livros, entrega as tarefas em dia e se interessa em aprender é bem quisto na nossa sociedade? Invejado? Admirado? Ou muitas vezes é chamado de “CDF”, “nerd” e sofre chacotas e desdém dos colegas?

Em 2020, o Brasil ficou em 10º lugar na Olímpiada Internacional de Matemática (G1, 2021), melhor resultado em 39 anos. Ficamos na frente de países como Canadá, França, Japão e Alemanha. Algum leitor lembra desse feito e fato tão importante para nossa Educação?

Em um país em que o principal título acadêmico é usado como pronome de tratamento de forma leviana para agradar ou demonstrar respeito para “autoridades”, mas raramente para quem tem o título stricto sensu, é importante uma reflexão do que nós brasileiros realmente valorizamos como objetivos de vida.

 

Referências

CHILDFUND. Childfundbrasil, c2021.

COSTA, J. S. S. M. et al. Funções executivas e desenvolvimento infantil: habilidades necessárias para a autonomia. São Paulo: Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, 2016.

FIGUEIREDO, N. G. S.; SALLES, D. M. R. Educação Profissional e evasão escolar em contexto: motivos e reflexões. Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v. 25, n. 95, p. 356-396, abr./jun. 2017

GLOBO COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S. A. G1, c2021.

SETE GRAUS. Dicionário Financeiro, c2021.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

TERRA

 


 Mariana R C Domingues


O ser humano se faz no convívio com os outros no seu ambiente. É o contato com sua realidade terrena e as características biológicas e químicas que fazem uma troca possível e equilibrada que permite a vida como a conhecemos. Ao longo da história, as civilizações humanas tratam de melhor condicionar as forças da natureza para conseguir conforto e minimizar possíveis efeitos destrutivos dos fenômenos naturais. Assim são pensadas as casas, os encanamentos, as calhas, as janelas, as hidrelétricas, as torres, as estradas... E neste viver civilizado uma infinidade de objetos são criados. Coisas são feitas para utilidade, coisas são feitas como ornamento.

“Coisas são só coisas servem só pra derrubar,

tem seu brilho no começo,

mas se viro pelo avesso,

são um fardo pra carregar”. Chico César.

E essas coisas que precisamos, que não precisamos e queremos são feitas de materiais extraídos na natureza. Objetos que são feitos de materiais da natureza transformada e, as vezes, quase irreconhecível.  A busca por esses materiais beira, e as vezes toca a insanidade. Quanta loucura e destruição se fez na busca por metais... Podemos encontrar um exemplo disso nas fotos de Sebastião Salgado sobre a Serra pelada; nos filmes ‘Olhe para cima”, ou até mesmo na literatura no livro “Senhor dos anéis” que descreve uma montanha devastada pela ganancia onde cavou-se um buraco fundo demais.

Falando em buraco vamos falar de alguns mineiros. Não aqueles que cavaram os buracos, mas aqueles que moram no Estado de Minas Gerais.

Recentemente Samuel Rosa compartilhou o comentário de outro mineiro Chico Pinheiro em suas redes sociais. No referido trecho Chico conta que foi de carro do Rio de Janeiro até Belo Horizonte e que ficou chocado com a paisagem. Lembrou de Drummond que alertou; Olhem as montanhas! Contou que pelas estrada se via paredões a encobrir o trabalho das mineradoras a roer as montanhas. As minas gerais estão se tornando cada vez mais gerais, as minas a inverter as montanhas. Cito Carlos Drummond de Andrade:

 

Confidência do Itabirano,

 

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!




 


            Esta imagem mostra a paisagem descrita no poema de Drummond. No livro, a foto em branco e preto trazia a visão da montanha ao fundo da mesma paisagem que a imagem atual traz, sem a montanha.

            Nesta ideia de montanha comida, montanha furada, terra esburacada sem parcimônia para a produção de materiais fica a reflexão: vale a pena juntar tantas coisas e ficar sem as montanhas? Esta cultura que domina, parece prometer um mundo mágico em que é possível ter todas as coisas e também as montanhas e suas terras. Trata-se da dificuldade em lidar com a falta e castração próprias do ser humano. E o mais irônico é que no fim das contas, se não for a montanha, é a terra que terá os homens.  

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

PANDEMIA, ESCOLA E DESVALORIZAÇÃO DO PROFESSOR

 



Saudações!! Segue mais um ensaio que escrevi durante uma disciplina do doutorado. Neste relacionamos os temas contidos no título.

                                  

PANDEMIA, ESCOLA E DESVALORIZAÇÃO DO PROFESSOR

DOMINGUES, Taciano Luiz Coimbra


            Ouvimos um comentário que responsabiliza os professores pelo fechamento das escolas durante a pandemia. O comentário provavelmente estava se referindo as aulas presenciais, uma vez que os professores continuaram suas atividades docentes através do ensino remoto. O comentário expressou culpabilização dos pais e professores pela não ocorrência das aulas presenciais.

O Ministério da Saúde em Nota Informativa Nº 05/2020 – DGVS/SES/MS (BRASIL,2020) publicada em março de 2020 no “inicio da pandemia no Brasil”, descreve uma série de cuidados que devem ser tomados para se evitar o contágio com o Vírus Corona e entre eles o afastamento social. Portanto a suspensão das aulas presenciais vai de acordo com as normas sanitárias e não com a vontade de descanso dos professores.

Podemos compreender que o comentário ecoa duas questões importantes no Brasil, a primeira é a incompreensão do que é uma pandemia, um vírus e como acontece a sua proliferação. A segunda é da desvalorização do principal profissional que trabalha com o conhecimento formal e sua transmissão, ou seja; professor, docente etc.

Carl Sagan em seu livro O mundo assombrado pelos demônios (SAGAN, 2006) descreve como a grande maioria da população ainda não compreendeu a construção do conhecimento científico e seu funcionamento. Essa afirmativa também é verdadeira para profissionais que passaram por formação universitária. Esse autor discorre sobre a preocupação de um retorno ao obscurantismo da Idade Média. Quando Sagan escreveu esse livro 1995, pareceria improvável que 7% dos brasileiros acreditam que a terra é plana em 2019, números constatados pelo Instituto Datafolha (GAIATO, 2020).

Essa pesquisa é apenas um indício da crise que nosso pais passa já alguns anos. O Índice de desenvolvimento da Educação Básica (BRASIL, 2019) em seus resultados em 2019, já estava aquém das suas metas, as quais podemos concordar que são modestas comparadas a outras nações do mundo.

            Outro indicio importante de um “analfabetismo científico” (SAGAN, 2006) fomentado pela crise na educação é o não cumprimento dos protocolos sanitários voltados ao COVID 19, ou o uso abusivo de medicamentos sem eficácia comprovada para o tratamento precoce dessa virose.

            Aqui chegamos a nossa segunda questão, uma desvalorização do professor. Essa depreciação aparece na forma de: salários baixos, condições insalubres de trabalho, falta de investimento em capacitação, desatenção à saúde física e mental desse profissional.

Diante das questões aqui discorridas, torna possível compreender que o comentário reflete o desconhecimento de como funciona a ciência e do papel primordial do professor na crise que estamos passando.

 

Referências

BRASIL, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Brasília, DF, 2019. Disponível em: <http://ideb.inep.gov.br/resultado/>. Acesso em 23 abr. 2021.

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Nota Informativa Nº 05/2020 – DGVS/SES/MS. Brasília,2020. Disponível em:<http://www.saude.ms.gov.br/wp-content/uploads/2020/03/NOTA-T%C3%89CNICA-N%C2%BA5_-COVID_19_-18_03_2020.pdf>. Acesso em 07 mai. 2021.

GAIATO, K. Milhões de brasileiros se declararam terraplanistas, diz Datafolha. Tecmundo, 2020. Disponível em: <https://www.tecmundo.com.br/ciencia/150626-milhoes-brasileiros-declaram-terraplanistas-diz-datafolha.htm>. Acesso em 07 mai. 2021.

SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios. Rio de Janeiro: Companhia de Bolso, 2006.


terça-feira, 30 de novembro de 2021

PSICOTRÓPICOS, SOCIEDADE E EDUCAÇÃO ESCOLAR


 

Saudações!! A proposta de compartilhar ensaios que escrevi durante uma disciplina do doutorado continua.  Nesse ensaio relacionamos os temas contidos no título.

 

PSICOTRÓPICOS, SOCIEDADE E EDUCAÇÃO ESCOLAR

DOMINGUES, Taciano Luiz Coimbra

 

O uso de substâncias psicotrópicos pelos seres humanos não é algo recente, existem indícios de seu uso desde a antiguidade. Sodelli (2010) sublinhou relatos antropológicos de várias culturas em que o ser humano procura alterar o seu estado de consciência, utilizando vários métodos: dança, música, privação, dor e poções.

Em seu livro O mal-estar na Civilização, Freud (1996) alegou que estar consciente o tempo inteiro de tudo que acontece ao seu entorno é algo insuportável, portanto, as pessoas constroem saídas para escapar da realidade, entre elas os entorpecentes. Algo bem colocado na música Meu Caro Amigo de Chico Buarque: “muita mutreta pra levar a situação, que a gente vai levando de teimoso e de pirraça, e a gente vai tomando que também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão”.

O III Levantamento Nacional sobre o uso de drogas pela população brasileira (BRASIL, 2017) informou que na faixa etária de 12 a 65 anos aproximadamente 8% da população brasileira já usou maconha e 3,1% cocaína. O uso de drogas legais como analgésicos opiáceos ocorreu em 0,6% e benzodiazepínicos ansiolíticos em 0,4% da população brasileira.

O uso de drogas legais e ilegais também é permeado por interesses econômicos. Leonardi e Matos (2020) comunicaram que no Brasil a indústria farmacêutica vendeu 215 bilhões em medicamentos em 2019. A indústria de Alimentos, que engloba bebidas e exportações, teve o número de vendas três vezes maior. Não podemos esquecer que a produção de drogas ilegais tem um ganho astronômico também.

O uso de fármacos vai além do uso terapêutico ou recreativo. No século XIX, o Império Britânico utilizou o grande poder de dependência do Ópio para possibilitar a entrada comercial no Império Chinês, movimento conhecido como Guerra do Ópio (DUARTE, 2005).

Os psicotrópicos são substâncias que promovem alterações no funcionamento nas vias/redes neurais e podem fomentar mudanças comportamentais, além de causar dependência. Farias e outros (2016) salienta que na sociedade ocidental existe um uso indiscriminado desses compostos com o objetivo de tratar tanto doenças físicas quanto mentais.

O uso irresponsável de psicotrópicos não é restrito a determinada faixa etária. Um bom exemplo dessa afirmação, é o uso do psicoestimulante Cloridrato de Metilfenidato, muito conhecido pelo seu nome comercial Ritalina ou Concerta (CONCEIÇÃO et al., 2019). Segundo os autores, esse composto aumenta a capacidade de concentração através da estimulação da liberação dos neurotransmissores dopamina e noradrenalina.

Esse medicamento é geralmente utilizado para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, o qual os sintomas são relacionados a desatenção, hiperatividade e impulsividade. Gomes, Gonçalves, Santos (2019) mencionaram que de 2007 a 2014 foi constatado o aumento 775% nas vendas do Metilfenidato. Outra informação importante revelada por esses autores é que muitas crianças estavam tomando essa medicação sem terem sido diagnosticadas com o transtorno acima citado.

 

A Ritalina, nome comercial do metilfenidato, é um psicoestimulante, prescrito majoritariamente no tratamento de crianças diagnosticadas com TDAH. Sendo um estimulante, da família das anfetaminas (como a cocaína), se consumida em certa dosagem, defende-se que auxiliaria no desempenho de tarefas escolares e acadêmicas, pois aumenta a atividade das funções executivas, aumentando a concentração, além de atuar como atenuador da fadiga (SILVA et al., 2012, p.46).

 

            O uso dessa medicação e esse transtorno estão diretamente relacionados ao ambiente escolar. Ribeiro, Viegas, Oliveira (2019) comentam que muitas vezes são os trabalhadores da educação escolar que solicitam a avaliação do aluno em relação a TDAH e o uso metilfenidato. Situação preocupante, uma vez que a escola teria que ser um espaço acolhedor para práticas alternativas de como tratar problemas de comportamento e aprendizagem; e não uma adepta a medicalização sem a busca de tratamentos alternativos, caso realmente diagnósticos sejam confirmados.

            Outra preocupação com do diagnóstico indiscriminado do TDAH e sua medicalização é a produção de estigmas, Fernandes e Denari (2017) narram que pessoas estigmatizadas são compreendidas como frágeis, impotentes, com problemas que causam desvantagem e assim são vistas de forma depreciativa pela sociedade e em desvantagem, “o aluno problema”.

            Nesse ponto, podemos refletir sobre a contradição que se instala. Ribeiro, Viegas e Oliveira (2019) esclarecem que os profissionais da educação escolar esperam que o diagnóstico de TDAH e o uso de metilfenidato auxiliará no processo ensino-aprendizagem, uma vez que esse fármaco “modularia” o comportamento do estudante. Contudo a estigmatização desse aluno poderá promover outras dificuldades que afetaram o processo de ensino-aprendizagem.

  

Referências

BRASIL, Fundação Oswaldo Cruz. III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira. Rio de Janeiro, 2017.

CONCEIÇÃO, A. P. et al. Uso da Ritalina para o melhoramento acadêmico nos cursos de enfermagem e farmácia. Revista Eletrônica Interdiciplinar: Barra do Garças, v. 11, n.1, 2019..

DUARTE, D. F. Uma breve história do ópio e dos opióides. Revista Brasileira de Anestesiologia: Campinas, v. 55, n. 1, p. 135-146, 2005.

FARIAS, M. S. et al. Uso de Psicotrópicos no Brasil: Uma Revisão da Literatura. Revista Biofarm: João Pessoa, v.12, n. 4, 2016.

FERNANDES, A. P. C. S.; DENARI, F. E. Pessoa com deficiência: estigma e identidade. Educação e Contemporaneidade: Salvador, v. 26, n. 50, p. 77-89, 2017.

FREUD, S. O mal-estar na civilização [1930], In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

GOMES, R. S.; GONÇALVES, L. R.; SANTOS, V. R. L. Vendas de metilfenidato: uma análise empírica no Brasil no período de 2007 a 2014. Revista Sigmae: Alfenas, v. 8, n. 2, p. 663-681, 2019.

LEONARDI, E.; MATOS, J. Industria farmacêutica tem crescimento acelerado. Tecnoblog, 2018.

RIBEIRO, M. I. S.; VIEGAS, L. S.; OLIVEIRA, E. C. O diagnóstico de TDAH na perspectiva de estudantes com queixa escolar. Revista Práxis Educacional: Vitória da Conquista, v. 15, n. 36 p. 178-201, 2019.

SILVA, A. C. P. et al. A explosão do consumo de Ritalina. Revista de Psicologia da Unesp: Assis, v. 11, n. 2, p. 44-57, 2012.

SODELLI, M. A abordagem proibicionista em desconstrução: compreensão fenomenológica existencial do uso de drogas. Revista Ciência e Saúde Coletiva: Rio de Janeiro, v. 15, n.3, p. 637-644, 2010.

sábado, 6 de novembro de 2021

LUTO E CAVALOS MARINHOS

 



 Mariana R. C. Domingues


Neste últimos tempos vivendo num contexto de pandemia mundial, falar sobre luto se tornou algo frequente. Ouvindo a canção “Vento no litoral” da Legião Urbana, faço uma interpelação entre o conceito psicanalítico de luto e a forma de abordagem da letra que fala de uma perda.

Vou iniciar apresentando brevemente o conceito de luto. Freud trabalhou sobre o assunto num texto intitulado “Luto e Melancolia” de 1917. Diante da perda de alguém, ou de um ideal é comum as pessoas apresentarem, por um tempo, um estado de desânimo, baixa auto-estima, desinteresse, transtornos alimentares, transtornos do sono e transtornos emocionais.

Neste texto Freud traça diferenças entre os conceitos de luto e melancolia, vejamos algumas; para Freud apenas a melancolia é patológica e o luto é algo natural e necessário. Entende-se que, no luto o mundo fica sem graça e na melancolia esta perda é vivida como se recaísse sobre o próprio eu. Apenas na melancolia há uma espécie de diminuição do ego. Isso ocorre por que na melancolia há uma identificação do eu com o objeto perdido e ocorre uma perda inconsciente.

A visão de funcionamento psíquico na psicanálise indica que as pessoas se ligam às outras pessoas e objetos por meio da pulsão, da libido. O que ocorre diante da perda de um objeto/pessoa amada é que uma quantidade de energia livre pode ter dificuldades em se direcionar para outros objetos. No processo de luto as pessoas podem dirigir a pulsão para outros objetos e interesses. Notamos isso quando após a morte de um ente querido ou mesmo o fim de um relacionamento, uma pessoa pode iniciar um novo hobby ou até mesmo envolver-se em algum trabalho. Na melancolia essa pulsão volta-se para o próprio eu, dificultando a capacidade de fazer vínculos.

São conceitos interessantes que norteiam o trabalho com o processamento do luto e a forma como podemos encaminhar as melancolias.

Agora vamos voltar à canção. Trata-se de uma música de autoria de Renato Russo e Dado Villa-Lobos, que foi lançada em 1991 no disco V. Vale a pena ouvir uma versão em que Cassia Eller canta junto com Renato Russo, a arte torna-se mais dramática.

Ressalto aqui que não se trata de uma interpretação da música, pois acredito que explicar obras e músicas é bem parecido com o ato de explicar uma piada, fazendo com que o riso perca seu encanto. Proponho aqui, apenas associações que foram possíveis a partir da letra musical e dos temas estudados.

No parágrafo inicial se coloca a sensação de buscar descanso, um encontro com a natureza, que permitisse o esquecimento ou o aplacar da dor. Fica evidente que a dor da perda não pode ser apagada por que os autores falam da presença interna do ser que está ausente. É disso que se trata no limiar entre o luto e a melancolia, não? A sensação descrita na música refere-se a presença da pessoa internamente, mesmo com a consciência de que ela não está mais presente. Quando o apego ao objeto perdido é muito forte pode haver uma confusão sobre quem afinal estaria perdido. Muitas vezes aquele que perdeu alguém encontra-se perdido. No verso que diz “o vento vai levando tudo embora” podemos pensar que o vento leva não somente a dor, mas também tudo a seu redor deixando a sensação de vazio.

Outro aspecto que aparece na música é o desamparo diante das situações de separações irreparáveis como aquela gerada pela morte. Quando cantado, o verso que diz “o que posso fazer” gera uma dúvida; trata-se de uma pergunta ou uma afirmação? O processo de luto coloca as pessoas diante daquilo que é irremediável. Há algo que foge do controle e que obriga o sujeito a seguir em frente. A imagem do corpo que deixa a onda bater, me parece refletir esse sentimento. Como não há o que fazer,  deixar a onda levar torna-se aquilo que é possível.

Mas nesse trecho da música logo é apresentada uma resposta: “O que posso fazer é cuidar de mim.” Bom, aqui há um norteador para o enfrentamento do luto, assim como no trecho que diz que “se entregar é uma bobagem”. O autor mostra que apesar da tristeza, precisa buscar o vento no litoral, e seguir o combinado: “lembra que o plano era ficarmos bem”.

Na travessia do luto esse olhar ao horizonte e ver mais além pode ser difícil, e o chamado pelas ondas e pelo vento, parece uma tentativa de amenizar ou levar embora aquele sofrimento. Mas, para além da letra, ouvindo a música sem notar qualquer palavra, fica evidente que o sofrimento não é levado embora pelo vento no litoral. Essa sensação de que a dor não vai acabar é descrita por pessoas nesta situação. Mas o processo de luto, mesmo que doloroso, tem um tempo e deve acabar.

Enfim, o que mais me chamou a atenção na música e me provocou na escrita deste texto foram os cavalos marinhos. É muito interessante que ao final da música apareça uma interjeição “Ei! Olha só o que eu achei”; é uma fala endereçada a alguém, e fala de um outro ser, um bicho bonito: cavalos marinhos! Por um momento, ao se encantar com os animais, o sujeito parece sair de sua dor. É um movimento que não tinha como objetivo esquecer ou desviar; é um fenômeno em que um Outro que se insere. Notadamente uma das questões que diferencia o luto da melancolia é justamente poder se dirigir a outros objetos, poder seguir em frente.

Finalizo com a letra da música:

Vento no Litoral

 

De tarde eu quero descansar, chegar até a praia e ver
Se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora

Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção

Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?

Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil eu sem você
Porque você está comigo o tempo todo

E quando vejo o mar
Existe algo que diz
Que a vida continua e se entregar é uma bobagem

Já que você não está aqui
O que posso fazer é cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem?

Ei, olha só o que eu achei, cavalos-marinhos

Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora


Segue o link da música:

 https://www.youtube.com/watch?v=4iyIzerrXjE